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Psicóloga do Degase nos conta como é feito o trabalho de ressocialização dos jovens em medidas socioeducativas

Psicóloga do Degase nos conta como é feito o trabalho de ressocialização dos jovens em medidas socioeducativas

28/01/2021

O Coletivo Aprendiz iniciou o ano de 2021 atuando como a entidade formadora na contratação de 2 jovens em medidas socioeducativas no Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) pela Cervejaria Petrópolis.

Durante o processo de assinatura dos contratos dos jovens, tivemos o prazer de conhecer a Psicóloga Ingrid Cristina Lúcio dos Santos, Mestra e Doutora em Psicologia Social pela UERJ, e que atua como psicóloga do Degase, da UFF e com atendimento clínico particular.

Ingrid trabalha no Degase há 8 anos como psicóloga e seu serviço é focado no acompanhamento e desenvolvimento de jovens em medidas socioeducativas.

Seu trabalho no Degase não tem foco em psicologia clínica, mas em um processo terapêutico realizado por meio de intervenções em forma de conversas que façam os jovens pensarem e refletirem em suas perspectivas.

O acompanhamento realizado por Ingrid é feito tanto com os jovens, como com suas famílias, referente aos seus processos judiciários.

Ingrid esteve em nossa sede para acompanhar e dar suporte a um dos jovens que assinou o contrato com a Cervejaria Petrópolis, e aproveitamos o momento para bater um papo com ela e saber a perspectiva dela, quanto psicóloga, sobre a importância dessa parceria entre as empresas e o Degase, na ressocialização desses jovens.

Como é a experiência e esse acompanhamento que é feito com os jovens em medidas socioeducativas?

Olha, é um processo complicado para esses jovens, no que se refere à sua autoestima, se verem em um processo seletivo.

Autoestima baixa, se tem a autoeficácia muito prejudicada. Então, é um desafio para eles se verem em um processo seletivo.

A fragilidade que vem por conta da baixa autoestima, e nesse sentido, quando você pensa em projeção de futuro, isso acaba prejudicando a sua autoeficácia e as suas perspectivas de futuro ficam reduzidas, muito restritas.

Como é a abertura do mercado de trabalho para esses jovens?

Infelizmente, esse tipo de oportunidade de reinserção social por meio do trabalho não é algo que ocorre com muita frequência.

Em geral, as empresas procuram por um jovem que não tem o perfil dos nossos jovens, que estão em medida socioeducativa. O padrão solicitado, geralmente é o de um rapaz que tenha as características presentes em quem está em formação dentro de escolas de alto padrão, por exemplo.

Mas, a única diferença entre os nossos meninos e os de lá (das melhores escolas) é que, se algum deles fizer alguma besteira, as coisas serão resolvidas de outra forma.

Vivemos atualmente uma chamada "cultura do cancelamento" um tanto cruel, que está mais presente no meio digital e é uma espécie de linchamento de pessoas que cometem alguns erros (alguns maiores que os outros). Você acha que esses jovens, que passam por medidas socioeducativas, de certa forma, passam por forma de "cancelamento" social?

Sim! Infelizmente, sim. Essa cultura do cancelamento é bem cruel com esses jovens. 

Eu costumo dizer que esses jovens carregam "marcas". Ir para uma instituição socioeducativa é simplesmente registrar uma marca em si.

Eles já são um público marginalizado, infelizmente. Fugindo um pouco do chamado "vitimismo", mas, em geral, esse público é negro e pobre. São pessoas que já nascem e crescem marginalizadas e, ao entrar em uma instituição como essa, isso vira mais um marco em suas vidas.

E, como tirar essa "marca" agora, após a medida socioeducativa?

Olha, sair desse estigma é um desafio. Não é fácil, porque quando se pensa no jovem à margem da sociedade, já se pensa na falta de acesso a referências que retirem de sua perspectiva a idealização de heróis e objetivos em coisas que os levem ao que a gente chama de "caminho errado".

Quando a gente pensa em uma pessoa que está à margem e que recebe influência de outras coisas, a gente imagina que ela vai passar a admirar e ter como referência outras coisas.

A nossa vida é construída no dia-a-dia e, infelizmente, quem está à margem, vai ter outros tipos de acesso e outras referências. Isso não é uma coincidência, mas são as consequências dessas referências.

Pessoas que já são marcadas previamente por estarem à margem, por vezes, acabam tendo referências, que acabam influenciando na forma em como elas vão estar em sociedade e isso pode ser um facilitador (ou não) para serem oficialmente marcadas.

Como reverter essa situação? É possível?

É um grande desafio no sentido de referências, porque, por muitas vezes, esses meninos cresceram admirando pessoas que encabeçam o crime no local onde vivem e entendem que ali há um modelo a ser seguido.

Principalmente os meninos que estão na semiliberdade, que podem sair aos finais de semana, para nós, há o desafio de eles estarem em contato com o mundo externo, mas de acordo com as intervenções realizadas dentro do Degase, eles podem ter um comportamento diferente ao encararem a realidade a qual estavam habituados.

O que o Degase faz em prol dessa mudança na vida desses jovens?

Dentro do Degase, esses jovens em medidas socioeducativas acabam por terem acesso a influências que têm por objetivo aumentar as suas perspectivas de reinserção social. Muitas empresas, por exemplo, fornecem serviços em forma de parcerias, com oficinas de várias vertentes para os internos, como: informática, esporte, cursos, leitura de poesia, entre outros.

Atualmente, os jovens do Degase de Niterói, unidade onde trabalho, recebem visitas semanais de profissionais da Prefeitura de Niterói para falar sobre drogas e seus diversos usos. A intenção é gerar uma conscientização sobre o tema e, caso haja a necessidade, fazer um encaminhamento para algum tipo de intervenção.

Essa oficina tem o intuito de abrir um pouco a cabeça desses jovens e mostrar que há outras formas deles se divertirem.

Quando eles estão frente a frente com você, conseguem se abrir? Como é essa troca?

No começo é sempre complicado, mas eu vou levando tudo, além da psicologia, com o meu jeito: na conversa. Inicio como um bate-papo que flui e, nesse processo, já vou fazendo uma troca terapêutica sem que eles sequer percebam.

Para o trabalho terapêutico acontecer, é preciso que haja uma mínima confiança, para que haja um diálogo.

Como os jovens em medidas socioeducativas são selecionados internamente para indicações de vagas como jovens aprendizes?

O primordial é que eles estejam estudando, pois é um requisito exigido até mesmo pela lei da aprendizagem. Após isso, é avaliada a maturidade do jovem e seu nível de comprometimento.

A pandemia de Covid-19 influenciou ou alterou algo nesse processo de acompanhamento?

Durante o período de quarentena, o acompanhamento foi realizado semanalmente, mas de forma remota, por meio de ligações para as famílias dos jovens para saber como eles estavam, ou dando continuidade a acompanhamentos e fazendo encaminhamentos para tratamentos psicológicos, pois o atendimento clínico é realizado pela prefeitura, quando necessário.

Alguns empecilhos que surgiram foram os retornos dos familiares. O trabalho remoto deixou tudo mais complexo e o principal ponto de dificuldade foi o acesso ao garoto. Porque, em geral, durante o período de pandemia, quem atende o telefone são os pais e a psicóloga, trabalha com o que é levado até ela pelos jovens. Isso dificultou um pouco nosso processo sim.

Como você se sente, de forma pessoal, fazendo esse trabalho?

Eu sinto muito prazer, apesar do grande desafio que é. Eu sei que, dentro de todas as influências externas que, em geral, bombardeiam e puxam esses jovens para retornar ao que os trouxe até o Degase, eu sou apenas uma pequena parcela. Seria muita prepotência minha, achar que somente essa minha pequena parcela de influência resolveria a situação dele. Mas a minha visão é que, se eu tenho 10% de influência sobre esse jovem, eu vejo isso como meu 100% e eu me jogo nessa porcentagem que é minha. Nesses 10% eu vou agindo nos detalhes, quer seja numa intervenção mais direta, seja em uma conversa ou em uma brincadeira.

Uma mensagem para as empresas:

Não é porque esse menino foi "marcado" pela medida socioeducativa, que ele precisa permanecer marcado para sempre. As empresas precisam abrir um pouco a cabeça e entenderem que, se eles querem mudança e ter uma variedade de funcionários, existe essa possibilidade por parte desses jovens e por meio da aprendizagem.

O Coletivo Aprendiz e o Degase

Nós acreditamos no desenvolvimento profissional como uma forma de transformar uma vida e estamos sempre em busca de empresas parceiras que tenham essa sensibilidade na procura por seus aprendizes.

O programa de aprendizagem é um investimento na transformação da vida dos jovens e gera a possibilidade de uma mudança efetiva em suas vidas.


Fonte:
Comunicação Coletivo Aprendiz